A presente pesquisa teve como objetivo demonstrar que a prática de queimadas não autorizadas ou ilegais ocorre com frequência nos Campos do Quiriri. As intervenções na paisagem mencionadas no primeiro post da série focaram no município de Garuva, no entanto, a abrangência das queimadas atinge outros municípios, tanto de Santa Catarina (Garuva e Campo Alegre), quanto do Paraná (Tijucas do Sul e Guaratuba). Ainda assim, a ocorrência e abrangência maior é na parte catarinense, já que os Campos do Quiriri se concentram mais nesse Estado, principalmente no município de Garuva.
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A análise foi realizada para um período de 20 anos (2006-2025). A época do ano com a maior ocorrência de queimadas é no período de inverno, principalmente entre os meses de julho e agosto. Nesse sentido, o recorte temporal utilizado para a busca das imagens foi entre 01 de junho e 30 de setembro.
Foram utilizadas imagens do satélite Landsat 5 (2006 e 2007; 2009 a 2011), Landsat-7 (2008 e 2012), Landsat-8 (2013 a 2015) e Sentinel-2 (2016 a 2025).
Importante evidenciar que em todos os anos avaliados foram encontradas áreas queimadas nos campos, com destaque em abrangência espacial para os anos de 2024 (> 1400 hectares), 2013 (> 900 hectares), 2025 (> 800 hectares) e 2020 (> 700 hectares).
A figura a seguir mostra as áreas com maior ocorrência de queimadas, sendo elas: região oeste do Marco da Divisa, proximidades do Tijuco Preto e do Morro do Sales.
De 2006 até 2012 a concentração das queimadas era na região do Marco da Divisa e do Tijuco Preto. A partir de 2013 as ocorrências se intensificaram na região do Bradador e Tartaruga, sendo que os maiores eventos em abrangência foram nessa região, e nas proximidades da Fazenda Quiriri em direção a Pedra do Lagarto.
Essa dinâmica de repetição da localização das queimadas, relacionadas também a proximidade de casas/abrigos e estradas/acessos é um indicativo consistente de que elas são ocasionadas de forma intencional.
A fotografia abaixo foi tirada em 15/07/2023 após uma queimada de grandes proporções que atingiu os Campos do Quiriri na região do Bradador e Pedra da Tartaruga. A seta vermelha indica a feição típica dos caminhos feitos pelos bovinos seguindo as curvas de nível do relevo.
É justamente a criação de bovinos a motivação principal para a queima dos campos, com o intuito de “renovar a pastagem”. Essa prática ocorre na região há décadas, inclusive no relato de 1960 de Dagoberto Mueller ele cita que encontrou “os serranos em sua labuta de queimar os campos…”. Com isso, evidencia-se que o uso recorrente de queimadas nos campos de altitude é uma prática enraizada na cultura local, e historicamente negligenciada pelas políticas públicas. Vale frisar que no Plano de Manejo da APA Quiriri as queimadas constam como uma ameaça aos recursos hídricos.
As imagens empregadas na análise de cada ano estão representadas a seguir. A primeira figura é de junho de 2026, mostrando a configuração da paisagem que antecede o período de queimadas, conforme identificado no histórico. Reitera-se que os eventos podem ocorrer em outros períodos, mas na média, as queimadas prevalecem no inverno.
As setas vermelhas nas imagens indicam áreas de queimadas. Ressalta-se que elas servem apenas como exemplo para auxiliar na identificação do padrão de cor e textura associado ao fogo, não delimitando a totalidade das ocorrências.
A falha no sensor do satélite Landsat 7 resultou na perda parcial de dados nas cenas registradas, como pode ser observado nas imagens de 2008 e 2012. Ainda assim, foi possível identificar áreas de campos de altitude impactadas pelo fogo.
A figura abaixo traz o mapeamento das áreas queimadas para todos os anos analisados (2006 a 2025). Nota-se que basicamente toda a área dos Campos do Quiriri já queimou em algum momento por conta dessas atividades irregulares.

Após a análise conclui-se que além das intervenções na paisagem ocasionadas pela abertura de estradas, as queimadas não autorizadas também são impactos ambientais negativos que vem ocorrendo nos Campos do Quiriri. A próxima postagem da série buscará trazer um panorama geral das intervenções que ocorreram nas últimas décadas nos Campos do Quiriri, com destaque pontual para algumas áreas.
Na sequência são apresentadas algumas imagens aproximadas durante a ocorrência das queimadas, onde é possível observar um outro impacto ambiental, que é a poluição atmosférica ocasionada pela fumaça.

Queimada nos campos nos dias 12 e 13 de julho de 2021, na região da Fazenda Quiriri e mirante Quiriri.
Mariana
24/07/2026 — 15:52
Esta segunda análise nos mostra que os campos do quiriri vem sofrendo ano após ano, com a negligência! De 2006 a 2025, são 20 anos de queimadas consecutivas!!
Quanta flora, quanta fauna, quanta biodiversidade impactada pela ação do ser humano, que continua insistindo em não compreender a sua relação com a natureza!
É triste ver imagens assim, mas necessário e esclarecedor.