O que motivou essa pesquisa foram as intervenções recentes que vem ocorrendo nos Campos do Quiriri com o uso de veículos 4X4 por “empresas de turismo” que estão comercializando passeios pelos campos. Lembrando que se trata de uma região inserida em uma Área de Proteção Ambiental (APA), especificamente a APA Quiriri, e possui um zoneamento municipal restrito, categorizado como ARPA-mn (Área Rural de Proteção dos Mananciais).
Além disso, conforme mapa a seguir, a área impactada está parcialmente inserida na bacia hidrográfica do rio Cubatão, especificamente na sub-bacia de seu principal afluente, o rio Quiriri, interferindo em áreas à jusante protegidas pela APA Serra Dona Francisca no município de Joinville. Ademais, o fornecimento público de água advindo do rio Cubatão corresponde a mais de 70 % do montante de Joinville, ou seja, é uma área sensível quanto aos recursos hídricos, sem mencionar a biodiversidade local.
Para a análise geoespacial foram utilizadas diversas bases cartográficas, sendo elas: imagens de satélite disponibilizadas no programa Google Earth Pro (GEP); imagens de satélite Landsat (resolução de 30 m); imagens de satélite Sentinel-2 (resolução de 10 m); imagens de satélite PlanetScope (resolução 3 m); ortofotos dos levantamentos aerofotogramétricos do Governo do Estado de Santa Catarina para os anos de 1957, 1978 e 2010; cartas topográficas do IBGE; e dados de altimetria e hidrografia disponibilizados no Sistema de Informações Geográficas de Santa Catarina (SIGSC).
O mapa a seguir mostra a área de interesse, onde estão os trajetos que vêm sendo utilizados pelos veículos 4×4. Os acessos foram categorizados em: a) acesso preexistente; b) acesso (reabertura recente).
Com base na análise histórica do conjunto de dados PlanetScope observou-se que a abertura do caminho para veículos até as proximidades do Rancho Sales, em um morro com altitude aproximada de 1.200 metros (conhecido como Morro 6 de Julho), ocorreu em junho de 2024. Já as intervenções até o Mirante Quiriri vêm ocorrendo desde o inverno de 2022.
Abaixo algumas imagens comparativas (rolar a barra para ver o antes e depois).
Na imagem de 1957 é possível verificar a inexistência de caminhos para veículos nos campos, inclusive para chegar a fazenda Quiriri.

Na imagem de 1978 é possível verificar a mesma condição de 1957.

Na imagem abaixo destaque para todo o trecho de acessos analisado, comparativo entre junho de 2024 e maio de 2026.

Na imagem abaixo destaque para o trecho impactado a partir de junho de 2024 para o acesso as proximidades do rancho Sales.

Na imagem abaixo destaque para o trecho até o Mirante Quiriri, e as intervenções que vem ocorrendo.

Os acessos recentes possuem uma extensão de aproximadamente 4,1 km, percorrendo áreas biologicamente sensíveis de campos de altitude e matas nebulares.
Conforme mapeamento hidrográfico, para acessar o Mirante Quiriri os veículos passam sobre o leito de 2 cursos d’água, além de 3 áreas sensíveis de APP de nascente. Pertencentes tanto a bacia do rio Quiriri quanto do rio Bracinho. Para acessar o Rancho Sales os veículos passam pelo leito de 6 cursos d’água, além de 4 áreas sensíveis de APP de nascente. Pertencentes a bacia do rio Quiriri e Pirabeiraba. Destaca-se que a projeção da Área de Preservação Permanente (APP) para os cursos hídricos é de 30 metros e para as nascentes de 50 metros.
Além da relevância ambiental existe a importância histórica e cultural, parte do caminho até as proximidades do Rancho Sales perpassa pela antiga Estrada Três Barras (que data do século XVIII). Se sobrepondo em cerca de 6,5 km, passando inclusive sobre antigo trecho de escadaria, conforme mapa a seguir.
Apesar da alegação de que ali já havia um caminho para veículos, este era utilizado primordialmente por caminhantes e bovinos, veículos (de forma irregular) frequentavam a região ocasionalmente. As aerofotos do Governo do Estado deixam evidente que até 1978 não existia um acesso para veículos até a Fazenda Quiriri, na carta topográfica do IBGE de 1981 (Folha Garuva SG-22-Z-B-II-I) existe o tracejado de uma estrada não pavimentada (tráfego periódico) até a fazenda, ou seja, o acesso veicular foi aberto nesse período. No entanto, não existia uma continuidade sobre os campos nas áreas privadas mencionadas nos mapas acima.
Destaca-se que na aerofoto de 1957 é possível visualizar a mesma estrutura que na imagem de 1978, visível também na fotografia abaixo feita por Dagoberto Mueller em 1960, durante uma expedição que ele fez desde o Monte Crista. Ou seja, a transformação na paisagem em quase 20 anos (1957-1978) foi mínima, e a partir da abertura da estrada para veículos (por volta de 1980) as transformações foram ocorrendo de forma acelerada, de modo a degradar o ambiente natural dos campos de altitude. Existem outras fotografias do Dagoberto sobre a mesma expedição, que possibilitam visualizar melhor a estrutura existente, que seria uma pequena casa/rancho feito com pedra e madeira e um mangueiro de gado anexo.
Outra área, denominada nessa pesquisa como Área 2, logo antes da entrada para a Fazenda Quiriri, também vem sofrendo intervenções na abertura de acessos para veículos nos campos de altitude, conforme imagens a seguir.

Além disso, ainda é possível verificar outro crime ambiental praticado regularmente na região dos campos, as queimadas não autorizadas. Existem diversas imagens de satélite que registram essa ocorrência e repedidamente nas mesmas áreas. Em uma outra postagem será abordado o tema.
Essa primeira análise evidencia a falta de fiscalização ambiental nos Campos do Quiriri e a necessidade de intervenções dos poderes públicos quanto ao uso indevido do solo na região. Novos estudos serão realizados com a finalidade de evidenciar os impactos existentes nos Campos do Quiriri e a necessidade urgente de proteção dessas áreas.
Mariana
16/07/2026 — 17:15
Triste de ver toda essa violação. Boa parte do ser humano insiste em não compreender o real valor da natureza e a nossa relação com ela! Parabéns pela abordagem, muito mais que necessária!
O Quiriri é patrimônio ambiental!
Thiago
17/07/2026 — 18:39
O Quiriri realmente deve ser preservado. Parabéns pela análise desenvolvida, seu trabalho é essencial para evidenciar como esse patrimônio ambiental está sendo violado.
Além de conscientizar a população
DANIEL JULIANO CASAS
18/07/2026 — 07:20
Parabéns pelo excelente trabalho e pela coragem em denunciar esses crimes!!!
Viva o Kiriri
Dani
Henrique
20/07/2026 — 13:56
É, Dr. Carlos, não adiantou o arame e o cadeado no portão, estão passando o trator na sua coleção de nascentes. Seria o loteamento chegando nos campos de altitudes?
Olhai pelo Quirirí…