Os dois primeiros posts focaram na região dos Campos do Quiriri em Santa Catarina, mas ao analisar a questão da silvicultura, com a plantação de pinus em si, ficou evidente a necessidade de ampliar a área de análise para o Paraná, especificamente em Tijucas do Sul, porção mais afetada.
A figura abaixo mostra um panorama geral da plantação de pinus na região dos Campos do Quiriri e Araçatuba, evidenciada no tom de verde mais escuro na porção oeste da imagem do satélite Landsat 5 de 1996.
Para o presente estudo foram utilizadas imagens dos satélites Landsat 2, 3, 5, 8 e 9 com diferentes composições de bandas. Além das fotografias aéreas cedidas pela Secretaria de Estado do Planejamento (SEPLAN) para Santa Catarina referente aos anos de 1957 e 1978 e pelo Comando do Exército para os anos de 1966 e 1980.
Por meio da análise histórica evidenciou-se que a plantação de pinus (Pinus sp.) na região se iniciou no final da década de 1970, por volta de 1978. A área mais afetada fica no município de Tijucas do Sul-PR, referente a dois grandes setores de plantio da empresa Confloresta (Piraí e Abarracamento), conforme figura abaixo.
Com base na aeroimagem de 1978 nota-se a presença de estradas, mas ainda não é visível a feição da plantação de pinus, no entanto, 2 anos depois, já fica evidenciada a presença das plantações. As estrututas em linha reta na imagem de 1980 tratam-se de leiras (pilha de material vegetal).

Na figura abaixo tem-se o comparativo para a mesma área entre 1966 e 1980:

Ainda, se compararmos algumas áreas dos campos, como a da figura abaixo próximo ao rio Cachoeira, observa-se a presença marcante de indivíduos de pinus que avançaram sobre os campos pela dispersão causada principalmente pelos ventos. Já na imagem de 1980, para a mesma área, os campos naturais ainda predominavam.

Quem já teve a oportunidade de fazer a travessia Araçatuba X Monte Crista sabe que um bom trecho da caminhada passa por áreas de silvicultura, entre o morro Baleia e o morro do Marco. Pelas imagens históricas evidenciou-se que, antes do pinus, os campos de altitude ocupavam uma área muito maior do que hoje, inclusive, a maior parte da travessia passaria por campos, desde a base do Araçatuba até adentrar na floresta após passar o cume do Monte Crista.

Na imagem acima o comparativo é entre os anos de 1966 e 1996, o tracejado laranja é a travessia Araçatuba X Crista. Abaixo nota-se como a própria serra do Araçatuba tinha uma área de campos de altitude mais ampla do que nos dias atuais.

A próxima imagem mostra aquele trecho na área do Abarracamento (área de pinus) que durante a travessia tem uma subida de cerca de 300 m, nota-se que antes da silvicultura tratava-se de uma paisagem aberta de campos de altitude.

Nesse contexto, na eventual criação de uma nova unidade de conservação integral na região com o intuito de preservar os campos de altitude, seria importante considerar o limite natural desse ambiente, antes da intervenção causada pela atividade agropecuária de silvicultura. Por ora, a erradicação dos indivíduos dispersos sobre os campos naturais seria uma iniciativa relevante para a conservação dessas paisagens.
Outro achado importante a partir dessas imagens, foi a observação de que a abertura da estrada de acesso veicular para a área de mineração de caulim nas proximidades da fazenda Quiriri, que ocorreu entre 1978 e 1980 foi o início de uma sequência de intervenções na paisagem natural dos campos.


Pelas imagens nota-se que a abertura da via ocorreu até a mineração, mas em poucos anos as intervenções na área foram aumentando, como a criação dos reservatórios e/ou represamentos artificiais.


Conclui-se com esse estudo que os grandes marcos que deram início a degradação dos campos de altitude no trecho da Serra do Mar na divisa entre Santa Catarina e Paraná foram:
1 – Abertura de estradas e plantação de pinus nas imediações dos morros Baleia e do Marco no final da década de 70 início dos anos 80;
2 – Abertura de estrada para passagem de veículos para acesso aos campos do Quiriri nas proximidades da Fazenda Quiriri no mesmo período.
Antes dessas intervenções, já havia na região a Estrada Três Barras que ligava o litoral norte de Santa Catarina ao planalto paranaense, e alguns abrigos/casas pelo caminho. Que serão tratados em uma nova publicação. Além da criação de gados nos campos, com a ocorrência de queimadas não autorizadas, que também geram um impacto significativo nessa paisagem natural.
Destaca-se que a partir dos últimos anos houve um aumento significativo no turismo de aventura na região da Pedra da Tartaruga e Marco da Divisa, impulsinado no período pós pandemia do COVID-19. E o início do turismo não autorizado de veículos 4×4 sobre os campos de altitude, que vem degradando de forma intensa essa paisagem.
Ademais, a estrada de acesso ao morro dos Perdidos já existia no aerolevantamento de 1980, e a estrada de acesso ao morro Bradador não estava presente no aerolevantamento de 1978 e 1980, e a partir das imagens Landsat sugere-se que esse trecho foi aberto entre o final dos anos 80 e início dos anos 90.
Para ler os primeiros posts da série, clique nos links abaixo:
Parte I – Intervenções recentes nos campos do Quiriri;
Parte II – Histórico de queimadas não autorizadas nos campos do Quiriri.
Agradecimento especial para todas as pessoas que de alguma forma vem contribuindo com informações para a publicação dessa série de postagens sobre os campos do Quiriri.
Qualquer informação complementar, não hesite em compartilhar!
Seguimos no propósito de contribuir com a preservação do bioma Mata Atlântica!
Henrique
21/08/2026 — 09:27
É o Pinus americano invadindo os campos brasileiros e a ganância privatizando as paisagens naturais. O pinus nessa região extinguiu comunidades e afastou os colonos da sua terra de subsistência.
Parabéns Yara por evidenciar esse histórico de ocupação danoso para os nossos campos serranos.